Todos os candidatos à Presidência da República são obrigados a detalhar seus bens e investimentos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o registro de suas candidaturas. Esses documentos, que se tornam públicos, oferecem um panorama das estratégias financeiras dos políticos que almejam o cargo máximo do país.
As informações apresentadas pelos 13 candidatos até o prazo final de registro, em 15 de agosto, revelam um patrimônio somado que atingiria a cifra de R$ 7,96 bilhões. Contudo, essa quantia é significativamente inflada por uma única declaração que, segundo o próprio candidato, está incorreta.
Excluindo o registro questionado, o montante total dos demais postulantes ao cargo cai drasticamente para R$ 539,6 milhões. No geral, as carteiras se concentram em ativos ilíquidos, como participações societárias e imóveis, com uma exposição quase nula à renda variável negociada em Bolsa.
O impasse bilionário na declaração de Pablo Marçal
O empresário Pablo Marçal (PRTB) se destacou na lista com um patrimônio declarado de R$ 7,42 bilhões. Desse total, um único item, descrito como saldo de renda fixa em CDB e RDB no Banco Itaú, soma impressionantes R$ 6.791.824.000,00, representando 91,6% do valor total.
No entanto, o próprio Marçal afirmou publicamente que essa declaração está incorreta e que já solicitou a retificação ao TSE, sem especificar qual seria o valor exato. Em 2024, quando concorreu à Prefeitura de São Paulo, seu patrimônio declarado era de R$ 169,5 milhões, um número cerca de 44 vezes menor que o atual.
A candidatura de Marçal ainda depende de validação da Justiça Eleitoral, pois ele foi declarado inelegível até 2032 pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) por abuso de poder político e econômico em sua campanha anterior. Desconsiderando a linha contestada, seu patrimônio declarado seria de R$ 626,5 milhões, com R$ 490 milhões correspondendo a um terreno urbano em Santana de Parnaíba (SP). Sem o erro, Marçal demonstra a maior variedade de produtos financeiros entre os candidatos, incluindo fundos DI e de infraestrutura, Letra Imobiliária Garantida (LIG), fundo imobiliário DAMA11, fundos multimercado e Tesouro Selic (LFT), além de participações em quatro empresas, totalizando R$ 111,66 milhões.
Análise dos investimentos dos demais candidatos à Presidência
Quando se exclui o valor contestado de Pablo Marçal, os ativos financeiros – que incluem fundos, renda fixa, ações e previdência – dos outros 12 candidatos somam R$ 112,08 milhões. Esse montante representa apenas 20,8% do patrimônio total declarado por eles, evidenciando uma preferência por ativos ilíquidos.
A maior parte do patrimônio desses candidatos está concentrada em participações societárias, imóveis e créditos a receber, que são ativos que não possuem precificação diária no mercado. A exposição direta à Bolsa de Valores é praticamente insignificante; à exceção de Augusto Cury, o maior investimento em ações declarado por um candidato é de apenas R$ 133,53. A alocação em renda variável, quando existe, ocorre principalmente via fundos de investimento.
Na renda fixa, o predomínio é de investimentos pós-fixados atrelados ao CDI. Essa escolha faz sentido para o período das declarações, que coincidia com um ciclo em que a taxa Selic estava em 14% ao ano. A caderneta de poupança, por sua vez, aparece com saldos meramente simbólicos na maioria das declarações, indicando sua baixa atratividade em comparação a outras opções de renda fixa.
Diversidade de estratégias: de Augusto Cury a Romeu Zema
O escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) apresentou a declaração mais extensa, com 56 bens totalizando R$ 242,28 milhões. Quase metade desse valor, R$ 121,19 milhões, está registrada como um empréstimo mútuo concedido à sua própria empresa, a Filadélfia Nature Participações. Cury é o único candidato com exposição relevante à renda variável, somando R$ 25,83 milhões em BDRs (Brazilian Depositary Receipts), R$ 7,09 milhões em ações do Bradesco (BBDC3) e R$ 799,5 mil em ações da Petrobras (PETR4), o que totaliza 13,9% de seu patrimônio.
Já o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), declarou R$ 178,71 milhões. Sua carteira se divide em 64,6% em participações societárias e 32,6% em fundos. O principal item é uma participação em holding familiar avaliada em R$ 94,50 milhões, uma estrutura comum para gestão patrimonial e sucessória. Zema também possui a maior posição individual em fundo entre todos os candidatos, com R$ 56,22 milhões alocados em um fundo multimercado.
Foco em imóveis rurais e previdência privada
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) declarou um patrimônio de R$ 52,56 milhões, com grande concentração em bens tangíveis. Imóveis rurais representam R$ 36,21 milhões e semoventes (rebanho) R$ 10,49 milhões, totalizando 88,9% de seus bens. Seu principal investimento financeiro é de R$ 4,29 milhões em títulos isentos de tributação, como LIG, LCI, LCA, CRI e CRA – papéis cujos rendimentos não sofrem Imposto de Renda para pessoa física, mas que já foram alvo de discussões sobre possíveis alterações em sua isenção por medida provisória editada em 2025.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) informou R$ 8,19 milhões em bens, sendo 76,1% desse total concentrado em uma casa no Lago Sul, em Brasília, avaliada em R$ 6,23 milhões. Sua principal aplicação financeira é um fundo de investimento em cotas multimercado de R$ 1,09 milhão.
Por fim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou R$ 4,78 milhões, um valor 35,7% menor que os R$ 7,42 milhões informados em 2022. Essa queda é atribuída, principalmente, aos seus dois planos de previdência privada VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), que somam R$ 3,30 milhões e representam 69,2% de seu patrimônio, divididos entre a Brasilprev e o Bradesco.
Perguntas Frequentes
O que são ativos ilíquidos e por que os candidatos investem neles?
Ativos ilíquidos são bens que não podem ser facilmente convertidos em dinheiro sem perda significativa de valor, como imóveis, participações societárias e créditos a receber. Candidatos investem neles por diversas razões, incluindo estratégias de longo prazo, controle de empresas ou negócios familiares, e como forma de proteção patrimonial.
Por que a poupança aparece com valores tão baixos nas declarações?
A caderneta de poupança oferece rendimentos que historicamente ficam abaixo de outras opções de renda fixa, como CDBs e Tesouro Selic, mesmo após a incidência de Imposto de Renda. Por essa razão, investidores com maior conhecimento financeiro, como muitos candidatos, tendem a alocar seu capital em alternativas mais rentáveis.
Qual o investimento financeiro mais comum entre os candidatos, excluindo a questão de Pablo Marçal?
Excluindo o valor contestado de Pablo Marçal, os ativos financeiros dos candidatos mostram uma forte preferência por investimentos em renda fixa, especialmente os pós-fixados atrelados ao CDI. Fundos multimercado também são uma escolha relevante, indicando uma busca por diversificação e potencial de retorno superior à poupança.
Como as declarações de bens ao TSE influenciam a percepção pública dos candidatos?
As declarações de bens fornecem transparência sobre a situação financeira dos candidatos, permitindo aos eleitores analisar a origem de seu patrimônio e suas prioridades de investimento. Essas informações podem influenciar a percepção pública sobre a ética, a capacidade de gestão financeira e a conexão dos candidatos com a realidade econômica da população.

