O Brasil se prepara para um cenário desafiador com a chegada de um dos episódios mais intensos do El Niño já registrados, batizado por meteorologistas de Super El Niño. A expectativa é que o fenômeno ganhe força considerável no segundo semestre de 2026, atingindo seu pico entre a primavera e o início do verão, com o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial superando 2°C.

As consequências para a economia, especialmente no bolso do consumidor, não serão imediatas. Especialistas preveem que o impacto mais significativo na inflação deve se manifestar ao longo de 2027, afetando diretamente a mesa dos brasileiros com a elevação dos preços dos alimentos.

A combinação de eventos climáticos extremos – excesso de chuva em algumas regiões e seca prolongada em outras – é a principal preocupação para o setor agrícola. Isso pode gerar uma pressão relevante sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país.

Os Efeitos Regionais do Super El Niño no Brasil

O Super El Niño não se manifesta de forma homogênea por todo o território nacional, apresentando padrões climáticos distintos em cada região. Boletins conjuntos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detalham essas projeções.

No Sul do país, a tendência histórica aponta para chuvas acima da média, elevando o risco de temporais e cheias de rios. Por outro lado, o Norte e o Nordeste podem enfrentar o cenário oposto, com períodos de estiagem mais longos e uma redução na disponibilidade de água, o que compromete lavouras e pastagens.

Já em grande parte da região Centro-Norte do Brasil, as temperaturas devem permanecer acima da média, aumentando a probabilidade de ocorrência de ondas de calor. Essa diversidade climática extrema cria um ambiente de incerteza e preocupação para a produção agrícola.

Inflação: Impacto de 0,9 Ponto Percentual em 2027

O impacto do Super El Niño sobre o poder de compra dos brasileiros é uma das maiores preocupações. A estimativa é que, em 2027, o fenômeno adicione cerca de 0,9 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Para contextualizar, o Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com o mercado financeiro, projetava em 3 de agosto de 2026 uma inflação geral de 4,22% para o IPCA em 2027. Isso significa que a pressão vinda apenas dos alimentos pode responder por uma parcela considerável e preocupante do índice de preços do próximo ano.

Os produtos agrícolas mais sensíveis às variações climáticas, como arroz, feijão, hortaliças, frutas, milho e a produção de leite, são os que tendem a sofrer mais com as oscilações bruscas de temperatura e umidade, repassando rapidamente seus custos para o consumidor final.

Arroz e Feijão: Vulnerabilidade da Cesta Básica

Arroz e feijão, pilares da alimentação brasileira, possuem um peso significativo no cálculo do IPCA de alimentos. Flutuações nos preços desses itens básicos reverberam com força no índice geral da inflação. A situação é agravada pelo fato de que essas culturas já chegam fragilizadas a este novo ciclo climático.

Levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a safra brasileira de arroz 2025/26 recuou aproximadamente 13% em comparação com o ciclo anterior. Essa queda se deve à redução da área plantada e a condições climáticas desfavoráveis em diversas lavouras. A produção de feijão também registrou uma diminuição, em torno de 5%, no mesmo período.

O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, ainda se recupera das enchentes de 2024. Qualquer novo excesso de chuva provocado pelo Super El Niño em uma região já fragilizada reduz drasticamente a margem de segurança para perdas na próxima safra, impactando diretamente a oferta e os preços no mercado.

Cronograma do Impacto nos Bolsos dos Consumidores

O cronograma de impacto do Super El Niño segue um padrão observado em episódios anteriores, onde os efeitos mais significativos nos preços costumam aparecer entre nove e dez meses após o pico do fenômeno climático. Essa dinâmica sugere uma elevação gradual dos custos dos alimentos ao longo de 2027.

Nos primeiros meses de 2027, o primeiro grupo de alimentos a sentir a pressão dos preços deve ser o dos hortifrutigranjeiros, especialmente nas regiões mais atingidas por chuvas intensas ou estiagens. São produtos com ciclos de produção mais curtos e sensíveis a mudanças climáticas repentinas.

No segundo semestre de 2027, a pressão inflacionária deve se estender para os grãos, incluindo arroz e feijão, devido à menor oferta e aos estoques já reduzidos. Posteriormente, o encarecimento do milho, essencial na ração animal, tende a elevar os preços das proteínas animais, como a carne bovina, completando o ciclo de impacto na cesta básica.

Perguntas Frequentes

O que é o Super El Niño?

O Super El Niño é a denominação dada a um episódio de El Niño de intensidade muito forte, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial acima de 2°C, com efeitos climáticos extremos e abrangentes em diversas regiões do mundo.

Quando o El Niño deve afetar a inflação no Brasil?

A previsão é que o impacto mais significativo do Super El Niño sobre a inflação no Brasil ocorra em 2027, com os maiores efeitos nos preços aparecendo entre nove e dez meses após o pico do fenômeno climático, esperado para o final de 2026.

Quais alimentos serão mais impactados pelo Super El Niño?

Inicialmente, no primeiro semestre de 2027, espera-se que os preços dos hortifrutigranjeiros subam. No segundo semestre, a pressão deve atingir grãos como arroz e feijão, e, em seguida, as proteínas animais, como a carne bovina, devido ao custo do milho para ração.

Como o Rio Grande do Sul é afetado pelo Super El Niño?

O Rio Grande do Sul, grande produtor de arroz (cerca de 70% da produção nacional), deve enfrentar chuvas acima da média, o que é preocupante. O estado ainda se recupera das enchentes de 2024, e novos excessos de chuva podem reduzir a margem de segurança para as próximas safras.

Qual a projeção de impacto do Super El Niño no IPCA de 2027?

A estimativa é que o Super El Niño adicione 0,9 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2027. Essa pressão sobre os alimentos representa uma parcela relevante da inflação total projetada pelo Boletim Focus do Banco Central, que era de 4,22% para o IPCA geral de 2027.